E tudo começou assim…

Será que para algo nascer, há que primeiro morrer?…

Parto da convicção de que a linguagem pode ser um espaço de encontro entre o que observo, o que vivo e o que ainda procuro compreender em mim e no mundo.

Há aspetos da vida pessoal — problemas, trabalho, relações e tudo o que lhes diz respeito — que, a meu ver, não interessam a ninguém. A privacidade de cada pessoa não devia ser objeto de estudo, crítica, exaltação ou intromissão; cada coisa tem o seu tempo, e cada pessoa o seu caminho.

Ainda assim, há pequenas situações que merecem ser observadas com atenção, pois podem moldar a forma como pensamos, compreendemos ou questionamos um determinado ponto de vista. A escrita tem sido, para mim, uma forma de organizar o pensamento e de lhe conferir permanência. Escrever permite-me transformar a dúvida em matéria de reflexão e a inquietação em linguagem.

Lembro-me, desde criança, de ser imensamente curiosa em relação às grandes questões do mundo — ou, pelo menos, grandes para mim. Ainda hoje, passadas dezenas de anos, continuo a perguntar-me:

  • por que nascemos e qual é a nossa missão?
  • de que forma podemos tornar a vida e o mundo melhores?
  • como criar algo único e, de algum modo, eterno;
  • como ser alguém melhor sem comprometer aquilo que há de melhor em nós;
  • se somos verdadeiramente únicos neste imenso universo;
  • porque somos tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão semelhantes;
  • qual é a função do bem e do mal?
  • o que define a morte;
  • se a minha consciência termina ou se vivo mais do que uma vida;
  • etc.

Ainda não encontrei respostas definitivas, nem suficientemente claras para mim. Mas é precisamente daí que nasce o meu entusiasmo por pesquisar e pensar com profundidade sobre estas questões: trata-se de um percurso que se constrói ao longo da vida. Há perguntas que não pedem resposta imediata, mas sim uma escuta atenta e contínua. A curiosidade, para mim, não é apenas uma prática intelectual; é também uma forma de estar no mundo.

Talvez venha daí a minha dificuldade em me definir por uma única área, tanto profissionalmente como, muitas vezes, pessoa. Não sou a mesma que era há uma década, nem a mesma que fui ao nascer; sou mutável, e por vezes essa mutabilidade cria em mim algum atrito.
Ao longo do tempo, aprendi que pensar profundamente também é uma forma de cuidado. Nem sempre encontro clareza, mas encontro, pelo menos, uma forma mais honesta de me aproximar das coisas.

Quando era mais nova, recordo-me perfeitamente de haver três ou quatro coisas que fazia quase todos os dias: criar histórias no meu caderno ou diário de bordo, desenhar personagens das minhas séries favoritas ou das histórias que inventava, ler, ler e ler até adormecer e fazer experiências de costura e culinária. Era uma criança feliz, fechada no meu próprio mundo, sempre a questionar o que fazia, lia ou ouvia dizer.

É dessa curiosidade que nasce a minha vontade de compreender algumas das situações que me ocupam o pensamento.
Assim, importa deixar claro que neste blog abordarei temas profundamente distintos entre si: por vezes a minha dimensão criativa, outras vezes os meus problemas profissionais, a forma como vejo o mundo a corroer-se, ou ainda a opinião e perceção que tenho de certas situações, mas sempre com a melhor das intenções.

Não escrevo para impor certezas, mas para explorar possibilidades. Este espaço é também uma tentativa de me compreender melhor a mim mesma através da observação do que me rodeia. Talvez seja precisamente nessa tentativa de compreender o mundo que se revele, aos poucos, também um modo de me compreender a mim.

O que escrevo nasce muitas vezes desse lugar intermédio entre a dúvida, a memória e a vontade de compreender. Este espaço pretende ser, acima de tudo, um lugar de partilha, de reflexão e de escuta.
Este será o meu território de escuta e elaboração, onde se cruzam memória, pensamento e imaginação num gesto simultaneamente íntimo e partilhado.

Boas viagens ao percorrerem algum do meu caminho 🙂

Sil


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